Maratona do Gelo

E ainda falam de nós...

Acompanhei a aventura dos corredores da Maratona do Gelo exibida no Esporte Espetacular (Globo) deste domingo e, comentando o assunto com o meu Dono, ele mandou que eu escrevesse um artigo sobre isso. Para quem não sabe do que se trata, essa prova é quase como entrar no avesso do inferno, que não é o paraíso (esse seria o oposto do inferno). A prova é realizada em novembro, na Antártica, com largada à meia-noite, sob um céu azul lisérgico (nesta época, o sol brilha 24 horas por dia lá) e o branco atordoante da neve que cobre tudo, inclusive nariz, boca, cílios e qualquer milímetro descoberto do corpo dos corredores.

 

Nessas condições, dezenas de atletas de várias partes do mundo se jogam numa corrida longa e sofrida num dos lugares mais inóspitos (e bonitos, diga-se) do planeta. Para a maioria, a consagração significa apenas cruzar a linha de chegada, independentemente de tempo ou colocação. São 42 quilômetros de percurso em que até suar é perigoso, pois o suor vira gelo em segundos. A temperatura média é de 30 graus negativos. Alguns voltam se arrastando e são levados direto às enfermarias espetadas no meio do nada justamente para esse fim. É angustiante ver o estrago que o frio faz – e olhe que não há amadores por lá; todos são treinados e equipados até os dentes. Mas, assim como o fogo, o gelo queima, abre feridas, corta a carne, mutila...

Aboletados confortavelmente no sofá, muitos que assistiram ao programa devem ter feito as mesmas indagações. Por que, afinal, esses esportistas se submetem a tal sofrimento? Que tipo de consagração há nesse flagelo que dura horas e horas e pode terminar muito mal? Por que não se contentam com a São Silvestre, por exemplo? E ainda falam de nós... Acompanhando o desfile de moribundos em que se converte a Maratona do Infer... opss.. Gelo, lembramos o quanto nós, submissas, somos incompreendidas só porque apreciamos um chicotinho ardido na bunda, uns rastros de cera quente na barriga, uns prendedores de roupa nos mamilos, vergões da cane nas coxas, pezinhos latejantes do bastinado...

Mais: ficamos vaidosas em ver o resultado de uma boa sessão de spanking na pele. Chegamos a ter torcicolo diante do espelho tentando apreciar os vergões deixados pelo couro nas costas. Basta visitar blogs SM, páginas em redes sociais e sites do meio para testemunhar o orgulho de tantas submissas exibindo os lindos hematomas colecionados no último encontro.

E quem de nós já não se lamentou em silêncio não poder exibir o “corpo em delito” para os colegas do trabalho, da faculdade, das baladas? Uma surra bem dada, seja com acessório ou com as mãos, deixa o corpo sexy. Uma cena só termina, de fato, quando as marcas vão embora. E quando todos os vestígios se vão, está na hora de adquirir outros. Não é assim?

Com esses maratonistas ocorre uma vaidade similar. Tão logo retornem da viagem, os momentos dramáticos, os pequenos e grandes acidentes, as pequenas e grandes vitórias também estarão enriquecendo seus perfis na web e serão replicados entre amigos e familiares. Afinal, uma conquista, sempre deve ser compartilhada... Se tiver uma pitada de drama, então, melhor... Eles vão merecer chuva de confetes, enquanto nós, submissas, teremos que curtir nossas premiações em ambientes restritos, de preferência preservando a identidade, se não quisermos atrair olhares assombrados.

Entre o maratonista que exibe na tevê as mãos dilaceradas pelas temperaturas negativas e a submissa que mostra nas redes sociais a bunda roxa de tanto apanhar há o mesmo ar altivo. E uma conexão importante: ambos chegaram ali expandindo limites, vencendo medos e desenvolvendo qualidades que serão aplicadas vida afora, como humildade, perseverança e resiliência. Já as motivações que os levam a suportar/perseguir o sofrimento são individualizadas e não têm necessariamente a ver com gostar de sofrer ou masoquismo (pelo menos no contexto sexual). Para o maratonista, o verdadeiro troféu é a superação. Para a submissa, também. E em que eles se distanciam? O prazer da submissa é erótico/sexual. Do maratonista, sinceramente, não sei. As endorfinas e demais hormônios são substâncias mágicas.

por: klarissa { K@ }


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