Os Haréns

Há um tempo, recebi estes textos de uma amiga do Rio de Janeiro. Relaciona-se ao tema – escravidão – num mundo diferente do ocidental. O relato é Histórico, por mais fantasioso que possa parecer, e nos conduz há muitos elementos de nossas fantasias. Obrigado Odalisca.

 

A palavra Harém deriva do Árabe "Haram" - significa protegido ou proibido. Sendo às vezes chamados de "A Casa da Felicidade". Neles havia a quase religiosa aceitação dos direitos exclusivos do Senhor da Casa na procura sexual por suas mulheres.

Um lugar onde as mulheres eram separadas e enclausuradas de todos, menos do homem que regrava suas vidas.

 

Contam uma história de luxuosas vidas, de grandes fortunas e Impérios. Nos haréns havia a cruel rivalidade entre as mulheres e as intrigas que influenciavam assuntos políticos. Tudo isso, somado a beleza dessas mulheres de tantas nacionalidades – asiáticas, africanas e ocasionalmente européias – reunidas, que até hoje fascinam o mundo inteiro.

 

O maior e mais suntuoso dos haréns foi o de Serralho e pertenceu ao Sultão Turco Mehmed II, "O Conquistador", que tomou a capital Bizantina de Constantinopla e chamou-a Istambul, no auge do Império Otomano. Estava localizado entre os aposentos particulares do Sultão e os do Chefe negro dos eunucos.

 

Tinha aproximadamente 400 salas centralizadas ao redor do pátio da Sultana Validé – Mãe do Sultão – contando neste número os aposentos e dormitórios das outras mulheres. A "Casa das Carruagens" e a "Casa dos Pássaros" que conectavam o harém ao mundo exterior eram cuidadosamente guardadas por dentro pela Divisão de Eunucos e por fora, pela Guarda Real.

 

A "Casa das Carruagens" era realmente a porta de entrada para o Harém, todo o contato com o exterior era feito através desse portão, que se abria na aurora e se fechava ao anoitecer. Os quartos dos eunucos conduziam á um pátio que abria á direita, para o "Caminho Dourado", no centro, para os aposentos da Sultana e á esquerda para os aposentos das Odaliscas. O luxo das salas dependia do status de quem as ocupassem, mulheres com alta posição tinham aposentos particulares, Odaliscas novatas e eunucos viviam em dormitórios.

 

 

O Mercado

 

O Mercado de escravos sempre foi um negócio próspero no Oriente Médio e nos arredores do Mediterrâneo, desde os tempos da Mesopotâmia em 200 a.C. Jovens capturadas em guerras, pagas como tributo por seus pais, ou pelos Governadores locais, eram colocadas á venda no Mercado aberto nas grandes cidades, sendo que Alexandria e Cairo formavam importantes entrepostos comerciais.

 

As jovens de extraordinária beleza eram enviadas para corte do Sultão, muitas delas como presentes de seus Governadores. Entre os privilégios da Sultana Validé, estava o de presentear o filho, uma vez por ano, com uma escrava numa data comemorativa, chamada, "O Dia do Sacrifício".

 

Estas jovens eram todas não muçulmanas, seqüestradas ou vendidas por pais empobrecidos. Antes de admitir as escravas dentro do harém, eunucos especialmente preparados examinavam-nas cuidadosamente procurando quaisquer defeitos físicos ou imperfeições. Se uma jovem era considerada satisfatória o chefe Eunuco a apresentava para a mãe do Sultão que seria a responsável pela aprovação final.

 

Uma vez confinada ao harém seu nome era trocado por um nome persa que enaltecesse suas qualidades individuais. Se por exemplo, uma jovem possuísse bochechas rosadas dariam a ela o nome de "Rosa Primaveril". Sendo agora uma Odalisca era imediatamente convertida ao Islamismo e iniciava um árduo treinamento, versando sobre as etiquetas palacianas e a cultura islâmica.

 

 

As Odaliscas

 

A palavra "Odalisca" vem de oda – sala – e significa literalmente "mulher de sala" insinuando o status desse tipo de escrava. Odaliscas de extraordinária beleza e talento eram preparadas para se tornarem concubinas aprendendo a dançar, recitar poesias, tocar instrumentos musicais e principalmente, controlar as artes eróticas.

 

Onze das mais atraentes Odaliscas eram selecionadas como "gedikli" – empregadas em espera – exclusivamente para o Sultão. Eram responsáveis por vesti-lo, banhá-lo, cuidavam de suas roupas e serviam-lhe a comida e o café. Consta que essas jovens também aprendiam a ler, escrever e a desenvolver outras habilidades tais como: costurar, bordar, tocar harpa e cantar. Sendo do agrado do Sultão permaneciam a serviço do mesmo ou, em última instância, poderiam ser oferecidas como presente a alguém se ele assim o desejasse.

 

Uma, entre as maiores honras que o Sultão poderia conceder a um de seus Pashás era presenteá-lo com uma Odalisca que tivesse adornado seu palácio, mas que não tivesse ainda se tornado sua concubina. De acordo com os preceitos vigentes o Pashá tinha que libertar a jovem e fazer dela sua esposa. Seus nobres encantos, tanto quanto suas importantes ligações dentro do harém faziam destas mulheres uma jóia a ser almejada.

 

Outras Odaliscas eram colocadas para servir a mãe do Sultão, ou as "kadins" – esposas – e ainda os eunucos. Jovens abençoadas por físico forte se tornavam criadas ou administradoras. Cada noviça era designada para um departamento do harém. Estes "gabinetes ministeriais" incluíam a Senhora dos Mantos, a Guardiã dos Banhos, Guardiã das Jóias, Leitora do Alcorão, Senhora dos Alimentos etc. Era possível para uma Odalisca crescer hierarquicamente dentro do harém imperial, mas se de qualquer forma, faltasse a ela talento ou manifestasse em algum momento qualidades indesejáveis, ela também corria o risco de ser banida do palácio e revendida no Mercado de Escravas.

 

 

A Favorita

 

O Sultão era quase uma entidade celeste diante do qual ninguém podia falar ou levantar os olhos. Apesar da lenda de que o Sultão jogava um lenço para a mulher com quem pretendia passar a noite, a escolha de uma Odalisca era bem menos casual e exibicionista.

 

Discretamente, o Chefe Eunuco acompanhava uma mulher guiando-a até os aposentos de sua majestade. Se depois dessa primeira noite ela alcançasse o posto de Favorita, publicamente sua ligação com o Sultão era ventilada e a nova Concubina recebia de presente novos aposentos, um barco, carruagem e escravos. O relato de um viajante do séc. XVII, Sir Paul Rycault assim diz:

 

“Se o Sultão ficasse satisfeito com uma Odalisca ele a colocaria na outra manhã aos cuidados da Senhora da Casa. Ela então retornava ao harém não apenas com uma pomposa cerimônia, mas também com a admissão pública de que era uma das Favoritas. Poderia ser banhada e até mesmo receber aposentos iguais aos de uma Haseki Sultana”.

 

Quando uma Favorita dava a luz a uma criança do Sultão, ela era elevada para a posição de esposa ou Haseki Sultana. Se porventura, o bebê fosse um menino e se tornasse Sultão, sua mãe se transformava a governanta do harém e também a mulher mais poderosa do Império, a Sultana Validé.

 

O homem muçulmano coloca o céu debaixo dos pés de sua mãe. Ele poderia ter quantas esposas ou escravas desejasse, mas mãe apenas uma. Confiava a ela então suas mais particulares e pessoais possessões, suas mulheres. A competição para a desejada posição de Sultana Validé era acirrada e envolvia altos riscos.

 

Um documento do Séc. VII pertencente aos arquivos do palácio Topkapi fala da rivalidade entre a Sultana Gulnush e a Odalisca Gulbeyaz- Rosa Branca - que teve um trágico fim.

 

O Sultão Mehmed IV estava profundamente apaixonado por sua esposa Gulnush, mas depois da entrada de Gulbeyaz em seu harém seus afetos foram redirecionados. Gulnush ainda apaixonada pelo Sultão ficou loucamente enciumada. Um dia, enquanto Gulbeyaz apreciava o mar sentada nas pedras, Gulnush se aproximou silenciosamente e empurrou-a penhasco abaixo afogando a jovem Odalisca.

 

A Maternidade real fornecia um imenso poder e riqueza, mas em contra partida, pouquíssima segurança. Conceber era apenas começar a perigosa jornada da auto defesa, que requeria grande astúcia e coragem. Os olhos espreitadores das ciumentas rivais sempre estavam por perto e a vida da mãe e de seu filho sofria a ameaça cotidiana de uma traição. O jovem príncipe ficava no harém com sua mãe e criadas até os doze anos e durante todo esse tempo sua mãe vivia em constante ansiedade. Conspirações eram comuns e dignas de precauções.

 

Com a ascensão de um novo Sultão as esposas de seu predecessor juntamente com seus séqüitos eram transferidas para o antigo palácio conhecido como "Palácio dos Indesejáveis" ou "Casa das Lágrimas". Seus aposentos eram destruídos e novos se erguiam e eram decorados para acomodar as novas ocupantes. Isso não garantia que quem chegasse ficasse satisfeita com suas acomodações por mais luxuosas e confortáveis que estas fossem.

 

 

Eunucos

 

Para guardar suas mulheres, os Sultões mantinham um imenso e valioso exército de eunucos, que podia chegar a oitocentos homens. Estes eram prisioneiros de guerra ou escravos, castrados antes da puberdade e condenados a uma vida de servidão.

 

Os eunucos brancos serviam no "Selamlik" onde o Sultão recebia outros homens. O caminho dourado, um adorável corredor com telhado primorosamente elaborado conectava esta área do palácio com o harém, onde os eunucos negros vigiavam as mulheres.

 

O Chefe Eunuco negro exercia grande poder político dentro na corte. Oficialmente sua posição era tão importante quanto à do grão vizir. Em virtude de sua proximidade com os mais íntimos segredos do harém e sua acessibilidade ao mundo externo o eunuco se tornou o elemento mais corrupto da sociedade do palácio.

 

Rodeado por mulheres treinadas para despertar a paixão nos homens ele é condenado a viver toda sua vida confrontado com a perda de sua capacidade sexual. Muitos se tornaram hábeis manipuladores traduzindo seu ressentimento em forma de vingança. Podemos encontrar traços dessa afirmação nas Cartas Persas de Montesquieu: “O Serralho é meu império e minha ambição, a única paixão que me restou. Noto, com prazer, que minha presença é solicitada o tempo todo. Incorro de bom grado no ódio que as mulheres nutrem por mim, pois ele fortifica enormemente minha posição. Seu ódio tem fundamento, posso dizer, com certeza, que interfiro em seus mais inocentes prazeres, estou sempre no caminho, um incomensurável obstáculo, antes delas saberem onde estão, encontram seus planos totalmente frustrados”.

 

O anão do palácio, também um eunuco, era uma espécie de palhaço da corte, grande fonte de diversão para o Sultão e as damas do harém. Como sua presença não oferecia grandes riscos, acabava participando de momentos íntimos da vida interna dos haréns. Num caderno de anotações do séc. VII aparece uma miniatura onde um anão eunuco está entre as mulheres, entretendo a todas, enquanto uma jovem mãe se encontra em trabalho de parto.

 

 

A Alma da Dançarina

 

Certa vez... Vieram para a corte do príncipe de Birkasha, uma dançarina e seus músicos. Tendo sido admitida na corte, ela dançou a música da flauta, do alaúde e da cítara. Executou a dança das chamas e do fogo e a dança das espadas e das lanças. Dançou as estrelas e o espaço e então, ela dançou a dança das flores ao vento.

 

Quando terminou, aproximou-se do príncipe e curvou o corpo em reverência diante dele. O príncipe ordenou que ela se aproximasse mais e perguntou-lhe: "Bela mulher, filha da graça e do encanto, de onde vem sua Arte e o que é este seu poder de comandar todos os elementos em seus ritmos e versos?".

 

E a dançarina curvou mais uma vez o corpo em reverência e respondeu: “Sua Alteza, sereníssimo Senhor eu não sei a resposta as suas perguntas: somente isto eu sei”:

 

A Alma do filósofo habita sua mente; a Alma do poeta habita seu coração; a Alma do cantor habita sua garganta, mas a Alma da dançarina habita todo o seu corpo. "O Viajante" - de Khalil Gibran.


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