Eu tu eles

"Eu Tu Eles" – a Introdução do desejo feminino no sertão machista

por: kalía { K@ }

 

Eu Tu Eles conta a incrível, mas verídica história de uma mulher - magnificamente interpretada por Regina Casé - que vive com três maridos, em plena sociedade patriarcal, que tem como pano de fundo uma situação insólita: a árida beleza do sertão.

 

 

O verdadeiro sertão nordestino aparece com toda sua força dando ênfase ao miserabilismo com um certo toque primitivo que torna a situação mais paradoxal: naquilo que imaginamos como um paraíso machista e pouco cultivado, a façanha da protagonista, ao impor o desejo feminino sobre o masculino.

  

A trama gira em torno da bóia-fria Darlene (Casé) pobre grávida e solteira, que após esperar em vão o progenitor de seu filho na porta da igreja, decide ir embora da sua região e retorna três anos depois com seu filho Dimas.

 

De volta à sua terra Darlene reencontra um antigo vizinho, Ozias, construindo uma modesta casa, o que no sertão é sinal de certa riqueza. O fato de Ozias ser construtor é ser bem-sucedido para o padrão miserável que o cerca. É nesse contexto de seca e miséria que começa o filme que se passa em uma realidade de extrema escassez. Então, Darlene comenta com admiração: “Enricou, hein?”.

 

Fruto de uma sociedade machista, Osias, um homem mais velho, vai “direto ao ponto” e oferece sua casa em troca da mão de Darlene. Sem nenhuma perspectiva de uma vida melhor, ela aceita a proposta. Já casada, Darlene trabalha de sol a sol, de facão à mão no corte da cana, bóia-fria, pegando transporte em “pau de arara” para ir ao canavial conseguir o sustento de sua família. Encontra a segurança no primeiro casamento, embora Ozias seja um velho ranzinza, interesseiro, autoritário, preguiçoso e impotente. Ele passa a maior parte do tempo deitado em sua rede contando suas cabras e ouvindo rádio.  

 

Insatisfeita com essa indiferença do marido, em poucos anos nasce um filho, muito mais escuro que Osias, negro, cujo progenitor é o vendedor de cabras. Algum tempo depois, Zezinho, primo de Ozias, vai morar com o casal e torna-se o segundo marido de Darlene. Zezinho, apaixonado, dá atenção para ela, uma mulher sofrida, que encontra, em uma gota (ou mais) de companheirismo e amor, novo fôlego para sua pobre existência.

 

Darlene dá a luz a uma criança parecidíssima com Zezinho. Osias, por sua vez, finge ignorar as evidências. Zezinho toma conta de seu filho não pretendendo esconder ser seu, porém, nem mesmo assim Osias renega a convivência com ambos, pois é conveniente que Zezinho cozinhe e tome conta da casa.

 

Tempos mais tarde, Darlene conhece Ciro, um rapaz bonito que estava de passagem, e apaixona-se. Ciro, seu parceiro nos canaviais é levado para ficar na casa com o trio apenas por pouco tempo, pois não tem um lar fixo. Entretanto, torna-se o “terceiro marido” de Darlene ao morar definitivamente no sítio, apesar dos protestos de Zezinho e sob a aquiescência de Osias, que afirma ser o “dono da casa”, sendo facilmente subornado pela comida trazida por Ciro. Outro filho de Darlene vem ao mundo, este agora de Ciro para completar o enredo do filme.

 

 

Personagens do Filme em frente a casa

 

A história prende a atenção e convence porque a protagonista Darlene é uma mulher que apesar de sua “condição submissa”, exerce certo poder e habilidade sobre seus consortes. O foco de sua habilidade está em conseguir que os homens, que são machistas e cheios de brio, aceitem essa situação porque de alguma forma a querem, seja por interesse e ambição, ou porque estão apaixonados por ela.

 

Darlene não é nem heroína feminista, nem uma rebelde, nem impositiva, nem sequer uma mulher "liberada". Tem uma vida normal de camponesa nordestina, submissa ao marido para fugir da miséria. Vive numa sociedade patriarcal, contra a qual não se rebela, mas acha uma maneira de burlá-la quando propõe aos seus consortes uma ordem familiar paradoxal: realiza a proeza de ter três maridos convivendo simultaneamente sob o mesmo teto, mas à qual sempre será preciso reagir com um "por que não?".

 

 

Um Harém antigo

 

Por que trazer a análise crítica desse filme para o nosso universo BDSM? Por que ao assisti-lo encontrei semelhanças entre o filme e os relacionamentos de Dominação e submissão vividos em forma de “harém”. 

 

Destaco a condição submissa de Darlene ao seu primeiro marido, sempre fazendo todas as suas vontades que chegam mesmo à exploração, resignada, não contesta, não se esmorece; chega ao ponto de ir embora, mas o primeiro marido a traz de volta de imediato e ela se conforma com sua condição. 

 

Outra vertente forte que aparece na personagem é o poder e o fascínio que exerce sobre seus maridos. Não seria ela uma dominadora, pois não tem postura dominante, diria mais que sedutora, ou uma switcher, cujo lado dominante aparece na sua sutileza e charme. 

 

Observa-se que nessa poliandria não consumada, pois o casamento múltiplo não foi legalizado, que todos têm interesse em manter a relação, por motivos diferentes, mas tem. Da mesma forma observa-se a convivência nos haréns, no contexto SM, óbvio que a realidade é inversa; um Dominador e várias submissas.  

 

A comparação que faço não é de gênero, mas sim de comportamento, assim como os três maridos conviviam com uma única esposa, mesmo sendo de natureza machista e conservadora, também muitas submissas convivem com um único Dono mesmo sendo de natureza rebelde e ciumenta. 

 

No filme fica bem claro o interesse de cada marido em manter Darlene. Mas e no SM, o que uma submissa, mesmo contra sua vontade, aceitar a condição de harém?

 

A experiência de quase seis anos vivendo nesta condição me faz perceber que assim como Darlene, o Dono é o foco das atenções, por Ele a submissa se resigna e aceita. Os motivos são diversos: por verdadeiramente curtir esse tipo de fantasia, por falta de opção, por dependência afetiva, por acreditar que será a premiada na conquista do coração do Dono e acredita ser capaz de tirá-lo dali e tê-lo só para si, por abraçar a fantasia por um tempo e depois quer seguir outro caminho... Os motivos não se enceram aqui, pois em cada cabecinha submissa existem múltiplas sentenças... 

 

O que mais encanta em Darlene é sua vivacidade e alegria que contagia para além de sua condição de miséria. Não aparece em momento algum reclamando da vida ou de sua condição, pelo contrário ela cria situações de sobrevivência física e emocional. É uma mulher que gosta de lutar pela vida com coragem e determinação, gosta de dançar e se divertir e ama incondicionalmente. Belo exemplo para submissas de harém, não?

 

 

Adaptação das críticas encontradas nos seguintes sites: Cinema em Cena, Terra e Boletim Jurídico

 


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